
Os Gémeos Daniel e Diana Sopas
Sei que tenho andado menos ativo por aqui, mas ainda estou a adaptar-me e a tentar encontrar um equilíbrio dentro de todas as mudanças. Posso não voltar ao ritmo diário mas espero conseguir fazer mais do que tenho feito ultimamente, se os gémeos deixarem.
Hoje trago então um assunto que pode ser longo, mas achei que fazia sentido, não só conhecerem os nossos Double D’s, mas também conhecerem toda a nossa jornada que nos levou a estas beldades que nos colocam um sorriso na cara logo de manhã.
O Início da Jornada
A história até poderia ser Daniel e Rita fazem hum hum toda a noite, como diz o Toy, Rita engravida e nascem os gémeos Daniel e Diana, mas com o nosso historial de vida, ninguém ia acreditar se fosse assim tão fácil.
Sim, é verdade, foi um processo longo, demorado, penoso, com altos e baixos, mas que nos levou a um final feliz, esse sim, como as histórias de encantar.
O Primeiro Contra Tempo
Isto tudo começou há uns 4 ou 5 anos, quando decidimos ser um bom momento para sermos pais. Parou de se usar métodos contracetivos e ver se naturalmente acontecia.
Ao fim de alguns meses sem haver resultados positivos, a Rita estranhou e achou que algo se passava. Nisto eu estava mais relaxado e despreocupado.
Acho que nós homens não nos lembramos, muitas vezes, que na mulher com o avançar da idade diminui a probabilidade de engravidar. Por vezes erradamente vamos tentar confortar dizendo que com tempo vai acontecer, mas esse tempo pode ser crucial.
Na perspetiva masculina nunca pensamos que possa haver algum contratempo ou problema.
Depois de a Rita falar com a médica de família, de fazermos alguns exames, fomos depois encaminhados para a fertilidade em Coimbra.

Segundo Contra Tempo
Um dos exames necessários para a Rita era uma Histerossalpingografia, um exame que serve para perceber se as trompas estavam desobstruídas.
Devido a condições fisiológicas, este exame foi extremamente doloroso para ela e não conseguiram fazer. Posteriormente foi-lhe marcada uma histeroscopia, que não foi realizada, pois os blocos operatórios nesta altura de COVID estavam encerrados.
Tivemos mais um tempo de espera, e tentaram novamente a Histerossalpingografia, mas com medicação. Não deixou de ser doloroso, mas desta vez foi realizada. Do resultado deste exame foi apurado que ambas as trompas estavam obstruídas.
Para a Rita foi reconfortante perceber que com este passo soubemos o que impossibilitava uma gravidez de forma natural, passamos então para a única maneira possível, a fertilização in vitro.
O Terceiro Contra Tempo.
No decorrer disto o tempo foi passando, tivemos o Covid, exames muito complicados e dolorosos para a Rita, injeções, medicações e sei lá mais que as mulheres sofrem nisto.
No nosso caso o meu trabalho foi muito simples e nada doloroso. Volto a dizer no nosso caso, acredito que para outras situações possa também ser complicado para o homem.
Até que chegou o dia da recolha das amostras. Para mim, foi uma recolha de esperma, a Rita teve de passar por internamento hospitalar e fazer uma punção. Neste processo foram recolhidos 18 óvulos, 9 foram fertilizados e 6 embriões bons para transferência.
No entanto, como a Rita fez uma hiperestimulação ovária, não foi possível fazer uma transferência a fresco e tivemos de aguardar mais uns tempos para poder transferir o primeiro embrião.
Primeira e Segunda Tentativa
Não sei se tivemos de esperar um ciclo ou se foi mais tempo, mas avançámos para a primeira tentativa, cheios de força e energia positiva. A Rita com todos os cuidados com medicações e mais não sei o quê, e lá fomos cedo para Coimbra.
Após longa espera, lá foi ela para a transferência. Ficou então a saber que, pelo menos no caso dela, não era um procedimento fácil. Lá recuperou, e viemos para a Figueira, cheios de positividade que ia ser logo à primeira.
14 dias depois percebemos que não. Teste de gravidez negativo, foi o primeiro balde de água fria. Tal como aconteceu na segunda tentativa. Tudo muito idêntico. Tentávamos então perceber o porquê se era por stress, alimentação, algum valor que tivessem mal nas análises, mas não. Era mesmo a probabilidade de acontecer ser baixa.

A Terceira Tentativa
Entre cada tentativa havia sempre alguma coisa que tínhamos de alterar. Quebrar o enguiço de alguma maneira. Mas sabíamos no fundo, que era uma questão de sorte, de perícia do médico e do corpo aceitar.
Na terceira tentativa tivemos o nosso positivo. Nem sei explicar a alegria que se espalhou por esta casa. Muito choro, muitos abraços, muito planeamento a começar.
Não quisemos contar a muita gente, queríamos esperar pelos 3 meses, mas a certos membros da família e amigos chegados foi impossível. Era o cumprir de um sonho nosso e de muitos mais.
Recebemos alguma roupa, a Rita já fazia um arsenal de fraldas reutilizáveis. Tudo parecia correr às mil maravilhas. Até que numa ecografia que fomos fazer às 8 semanas, poucos dias depois da consulta em Coimbra, o médico diz que o coração não batia, tendo a Rita feito um aborto retido.
Nem vos sei explicar como aquilo nos caiu, estarmos os dois a olhar para a máquina da ecografia, ver o bebé no ecrã e saber que no dia a seguir tínhamos de ir para a maternidade em Coimbra.
O Aborto
Pouca gente fala abertamente sobre isto, e torna o tema tabu, mas algo que apreendi nesta fase foi que os abortos são mais comuns que uma pessoa imagina.
Muita gente passa por eles no silêncio, com vergonha e com medo, posso-vos garantir que é uma coisa que deixa um trauma enorme. Eu vi a Rita a contorcer de dores em casa, sem eu conseguir fazer nada para ajudar, ao ponto de a termos de a levar para as urgências.
Aqui também vi o calor humano que nos foi transmitido pelas enfermeiras e médicas que ainda hoje me lembro. Via nos olhos de algumas que era algo pelo qual já tinham passado e davam nos força para não desistir. E aqui vocês já sabem que desistir não é connosco.

Depois do Aborto
Como disse desistir não estava nos nossos planos, depois de tudo isto a Rita teve de fazer uma ecografia para perceber se o útero tinha ficado limpo. Nesse exame descobriram que ela tinha um pólipo no útero.
Mais um tempo de espera, para ser marcada e feita a sua remoção através de um exame doloroso e sem anestesia, uma histeroscopia. Durante o exame ainda se aperceberam que não era um, mas sim dois pólipos que tinham de ser retirados.
Foi então tempo para recuperar, restabelecer energias para então voltar à carga com nova transferência.
A Quarta Tentativa
Desta vez tentámos que não existissem grandes alterações no processo desta tentativa para a anterior. Pois, se tinha dado positivo é porque alguma coisa tinha sido bem-feita.
A única diferença era que uma das medicações necessárias para a Rita tomar foi feita por injeções na barriga em vez de medicação oral. Para a Rita essas injeções quase que já eram algo natural.
Apesar de todos estes cuidados e de toda a esperança de repetir um teste de gravidez positivo, foi novamente uma tentativa negativa.
O Diagnóstico de Cancro
Aqui não me vou alongar, pois, tem várias publicações sobre este assunto aqui no blog. Quero apenas falar como este diagnóstico veio influenciar o caminho que vínhamos a fazer. Basicamente foi mais uma montanha colocada à nossa frente.
Desde o choque do diagnóstico, à aceitação e motivação para ultrapassar novo desafio, foi mais uns meses que passaram. Tivemos uma cirurgia onde foi retirado grande parte do tumor, mais o tempo de recuperação.
Nesta altura já só tínhamos dois embriões, então por prevenção antes de avançar com os tratamentos de Quimioterapia e Radioterapia, foi feita a criopreservação do esperma, para se no futuro fosse necessário.

O Casamento e Novas Tentativas
Depois disto houve duas decisões que tiveram de ser bem pensadas e faladas. Quem me conhece sabe que casamento nunca fez parte dos meus planos, mas nesta altura achei fazer sentido. E foi um casamento embora simples, muito memorável.
A outra foi a decisão se íamos avançar com as últimas duas tentativas que ainda tínhamos. De lembrar que o meu diagnóstico tinha sido de um glioblastoma e que me tinham apenas dado alguns meses de vida.
Esta decisão para mim não foi fácil, pois nunca quis que os meus filhos fossem crescer sem um pai presente, como foi o meu caso. Sempre quis ser pai presente.
Aqui o que pesou mais na decisão foi a luta toda que já tínhamos tido, cerca de uns 3 ou 4 anos, todos os altos e baixos e que não era justo da minha parte impedir a Rita de cumprir o sonho de ser mãe.
Então decidimos avançar, pois, para mim, ter a possibilidade de conhecer os meus filhos, seria era sempre um cumprir de um sonho. Para quando eu cá não estiver tenho muita gente que pode ajudar na figura paterna que eu gostava que eles tivessem.

Quinta Tentativa
O processo aqui mudou um bocado, a Rita teve de passar por algumas fases do processo sem mim, porque eu estava a recuperar a força e energia.
Mais uma vez o resultado foi negativo. Mesmo com toda aquela esperança que depois de tanta coisa a correr mal nesse ano, que viesse uma alegria dar mais força e motivação.
Uma coisa sabíamos, a última tentativa teria de ser o mais rápido possível. Assim a Rita ainda conseguia fazer o segundo ciclo de tratamentos. Ou seja, passar por todos os passos novamente, nova estimulação, nova punção etc., antes da Rita atingir os 40, para se ficar com mais embriões, mais tentativas.
Sexta e Última Tentativa — o Milagre da Multiplicação
Esta tentativa tinha tudo para correr mal, primeiro de tudo era a última e na nossa cabeça eles tinham guardado o pior embrião para o fim. A Rita começou então a preparação para a sexta transferência. Quando estamos a passar um fim de semana em Braga ela engana-se na medicação e nenhuma farmácia tinha a medicação que ela precisava, o que fez com que depois tivesse de ajustar a medicação.
Tal como na vez anterior, como eu não posso conduzir, a Rita foi a conduzir sozinha para Coimbra, passou por todo o processo da transferência, voltou para a Figueira, no dia a seguir estava a trabalhar. Tudo sem ninguém saber de nada. Só eu e a Rita sabia.
E não é que o resultado foi positivo? Melhor ainda, na primeira ecografia descobrimos que de um embrião, saíram gémeos, em sacos diferentes, o que fez com que a pergunta que mais ouvimos depois era se tínhamos a certeza que só tinham transferido um embrião. Sim, era o único que restava.

Proposto a Segunda Cirurgia ao Cérebro
Quase que nem deu para celebrar a boa notícia, pois levamos logo a seguir outra má. O tumor tinha aumentado e por estar numa localização boa e ser pequeno, decidiram avançar para uma segunda cirurgia.
Fui então colocado em lista de espera e aconselhado para me resguardar porque a qualquer momento podiam-me chamar. Era dezembro e os hospitais, se bem se lembram, estavam um caos.
Tínhamos decidido não contar a ninguém da gravidez antes dos 3 meses. Então a desculpa de nos isolarmos um bocado foi os cuidados que tinha de ter por causa da cirurgia.
Passamos o Natal, apenas os cinco, eu, a Rita, Os Double D na barriga da mãe e a Vitória. Juntou-se depois o resto da família perto da meia-noite para as prendas.
Em fevereiro, feitos os 3 meses, contámos à família e amigos. A
Rita, entretanto ficou de baixa, pois preenchia todos os requisitos sendo uma gravidez de risco com histórico de aborto e pela idade.

Preparação Para a Chegada dos Gémeos
Sabendo que a cirurgia estaria para breve sabíamos que tínhamos de preparar e comprar tudo o que fosse necessário para os gémeos com mais antecedência que o normal.
Fizemos o curso de preparação para o parto através da USF de Buarcos, onde se criou uma boa comunidade entre as mães que ainda hoje se mantém unida.
Fomos ao IKEA, ver dos berços e de outros móveis que pensamos para o quarto deles. Em Coimbra, na ByBébe fomos comprar o carrinho, os ovos, entre outras coisas.
Com a ajuda do Baggio e dum colega de trabalho, pintaram o quarto deles, mudamos algumas coisas aqui por casa, eu fiquei sem escritório, mas quando fui chamado para a operação, as coisas estavam prontas para a minha recuperação e para os gémeos.

A Segunda Cirurgia
Chegámos então a maio, mês onde fiz a segunda cirurgia ao meu Glioblastoma. Como já contei, a cirurgia correu bem, a recuperação também. De tudo o que podia ter acontecido fiquei apenas com perda de campo de visão. Coisa que não digo que nos habituamos, mas aprendemos a viver com isso.
O principal e o que me dava força era estar vivo, conseguir ser autónomo e claro o mais importante conhecer os meus gémeos.
A recuperação correu bem, a ferida sarou sem problemas, os agrafos saíram bem, tive um bocado mais de dores de cabeça, mas foi suportável, mesmo com os nervos do que o futuro ia trazer.

5 Julho 2024
Sim, este é o dia que vai ficar marcado na nossa vida para sempre. O dia que os nossos Double D’s nasceram. O melhor fim para este longo artigo é este.
O cumprir de uma longa caminhada, com muitos altos e baixos, mas que culminou num final de conto de fadas. Um final feliz.
Sei que este artigo foi longo, tal como foi o nosso caminho. Quisemos detalhar ao máximo as partes mais importantes e com as quais mais pessoas se pudessem identificar.
Queremos que a nossa história sirva de inspiração para os inúmeros casais que possam estar a passar por desafios semelhantes e assim dar força para não desistir e acreditar que o final feliz, qualquer que ele seja, irá aparecer. Atenção que por vezes pode vir a dobrar.

"Na vida, tanto ganhar como perder acontecem. O que nunca é aceitável é desistir."
Magic Johnson
Daniel Sopas
Sou uma pessoa interessada por tudo e mais alguma coisa tal como sou também criativo, tenho uma mente hiperativa e quase sempre cheia de ideias. Desde Fevereiro de 2023 luto contra um cancro cerebral, um Glioblastoma de grau IV.




